A Hipnose que a Ciência já comprovou (e que muita gente ainda ataca sem saber a História)
Existe uma palavra que ainda causa desconforto em consultórios, em rodas de conversa e até dentro de universidades de Psicologia. Essa palavra é hipnose. Basta mencioná-la e, quase sempre, alguém vai lembrar de show de palco, de “perda de consciência” ou de manipulação. Poucos sabem que essa mesma técnica, hoje, é usada em hospitais, em procedimentos cirúrgicos, em consultórios odontológicos e em cuidados paliativos, com resultados medidos, publicados e revisados por pares.
E, mais curioso ainda: poucos sabem que o próprio Sigmund Freud, o “pai da Psicanálise”, usou hipnose no início da carreira e a abandonou não porque ela não funcionasse, mas por razões muito mais humanas do que a maioria imagina. Vamos entender essa história com calma, porque ela explica muito do preconceito que existe até hoje.

De Mesmer a Freud: uma técnica que sempre gerou barulho
A história moderna da hipnose começa com o médico austríaco Franz Anton Mesmer, no fim do século XVIII. Mesmer acreditava em um “fluido magnético” que circulava entre os corpos e causava doenças quando ficava desequilibrado. Essa teoria foi rejeitada por comissões científicas da época, mas os fenômenos que ele produzia nos pacientes eram reais e intrigantes.
Foi o cirurgião escocês James Braid, décadas depois, quem separou o fenômeno da teoria mística. Em 1841, Braid foi assistir a uma sessão de um discípulo de Mesmer para desmascará-la, mas saiu impressionado, porque não conseguiu identificar nada de falso na fenomenologia, apenas na explicação teórica por trás dela, o que o levou a publicar, em 1842, um trabalho mostrando os erros de Mesmer e abandonando o vocabulário do magnetismo em favor do que evoluiu para “hipnotismo”.
Ref: Hipnose Institute
O trabalho de Braid abriu caminho para duas escolas francesas que travaram um verdadeiro duelo científico no fim do século XIX. Em Paris, a Escola de Salpêtrière, liderada pelo neurologista mais respeitado da época, Jean-Martin Charcot, considerava a hipnose um estado patológico de dissociação, comparando o transe ao processo histérico e a anormalidades no sistema nervoso. Já em Nancy, os médicos Liébeault e Bernheim sustentavam o oposto: pensavam a hipnose como um estado de consciência normal e natural do ser humano. Essa discordância foi tão forte que terminou na completa rejeição da teoria de Charcot, e a concepção de Bernheim se tornou a base dominante para a teoria, a pesquisa e a prática da hipnose no século XX.
Ref:A História da Hipnose – Hipnoterapia Educativa & Instituto Milton H. Erickson SP +2
Fontes: Dell’Isola, A. Uma Breve História da Hipnose; Hipnoterapia Educativa & Instituto Milton H. Erickson SP, A História da Hipnose; Hipnose Institute, A História Da Hipnose: Completa Em Seus Detalhes E Curiosidades.
O que Freud viveu de verdade com a hipnose
Freud não era um crítico distante da hipnose. Ele foi aluno direto dela. Freud estudou no Salpêtrière entre 1885 e 1886, sendo o aluno mais famoso de Charcot, e recebeu influência tanto de Charcot quanto de Hippolyte Bernheim, que chegou a ser seu professor, o que lhe permitiu usar e desenvolver o método hipnótico em sua clínica. Ele fez parte da própria história viva da técnica: esteve presente, em 1889, no Primeiro Congresso Internacional de Hipnotismo Experimental e Terapêutico, organizado por Charcot. Ref: Hipnose: um resumo segundo a Psicanálise, por Freud. +2

Só que, com o tempo, Freud foi abandonando a hipnose. E aqui está o ponto que pouca gente conta direito: não foi porque a técnica “não funcionava”. Foi, em boa parte, porque ele mesmo reconhecia uma limitação pessoal. Historiadores da psicanálise registram que Freud afirmou ter decidido abandonar o método quando constatou que, apesar de todos os seus esforços, só conseguia colocar em estado de hipnose uma pequena parcela dos seus pacientes, e que lhe faltava a qualidade de um bom hipnotista. Ref: Psicanálise Clínica
Existe ainda um segundo fator, este de leitura histórica e não uma frase do próprio Freud: pesquisadores que estudam a origem da psicanálise apontam que o distanciamento em relação à hipnose também se deveu ao fato de Freud e dos demais fundadores da psicanálise buscarem maior credibilidade, uma vez que a hipnose possuía relações com o mesmerismo, já descreditado cientificamente. Ou seja: manter a hipnose por perto era um risco de reputação, num momento em que Freud construía um nome novo dentro da medicina, numa época em que essa técnica era mal vista pelos pensadores daquele meio. Ref: Encenasaudemental
Não estou aqui para diminuir Freud. A obra dele é gigante e mudou a forma como entendemos a mente humana. Mas preciso te contar isso porque encontro, todos os dias, colegas de profissão que atacam a hipnose com desprezo, como se fosse charlatanismo, sem saber que o próprio “pai” da linha que eles defendem teve dificuldade pessoal com a técnica, num momento em que ela era mal vista pelos pensadores da época. Rejeitar uma ferramenta porque um homem, há mais de cem anos, não conseguiu dominá-la, é jogar fora décadas de ciência que vieram depois.
Fontes: Psicanálise Clínica, Hipnose: um resumo segundo a Psicanálise, por Freud; Psicanálise Clínica, Freud, Charcot e a Hipnose na paciente Emmy (citando Chertok, L. & Stengers, I., O coração e a razão: a hipnose de Lavoisier a Lacan, 1990); En(Cena) — A Saúde Mental em Movimento, Franz Anton Mesmer – a Hipnose e a Psicologia.
Hipnose não é mistério. É foco.
Esqueça a imagem do relógio balançando e da pessoa “desligada” no palco. A definição usada pela comunidade científica hoje é muito mais simples do que o imaginário popular. Em 2014, a Divisão de Hipnose Psicológica da Associação Americana de Psicologia (APA Division 30) definiu formalmente a hipnose como um estado de consciência que envolve atenção concentrada e redução da percepção periférica, caracterizado por uma capacidade maior de resposta a sugestões.

Traduzindo para a vida real: hipnose é foco e concentração direcionada. É o mesmo estado que você entra quando está absorto em um livro e chora com a cena, ou quando está dirigindo no automático e nem percebe que passou três quarteirões. Você não desmaia, não perde o controle, não sai do próprio corpo. Você fica presente, consciente, ouvindo e sabendo tudo o que acontece ao redor, só que com a mente direcionada para dentro, para onde a raiz do problema realmente mora.
Fontes: American Psychological Association, Division 30 (Society of Psychological Hypnosis), Definition and Description of Hypnosis, 2014.
Onde a hipnose já está aliviando dor de verdade
Isso não é promessa. São estudos publicados em periódicos científicos de peso, com pacientes reais.
Em procedimentos médicos invasivos. Um estudo publicado na revista The Lancet randomizou 241 pacientes submetidos a procedimentos vasculares e renais para receber cuidado padrão, atenção estruturada ou relaxamento autohipnótico durante o procedimento. A dor aumentou de forma linear ao longo do tempo no grupo de cuidado padrão, mas se manteve estável no grupo de hipnose; o uso de medicação foi significativamente menor nos grupos de atenção e hipnose; apenas um paciente do grupo de hipnose apresentou instabilidade hemodinâmica, contra dez no grupo de atenção e doze no grupo padrão; e os procedimentos com hipnose ainda terminaram mais rápido.
Ref: nih
Em cirurgia oncológica. Uma revisão sobre hipnose clínica em cuidados paliativos de pacientes com câncer aponta um ensaio em que o custo por paciente foi US$ 772,71 menor no grupo de hipnose em relação ao grupo controle, por conta da redução do tempo cirúrgico, em pacientes submetidas a biópsia de mama.
Ref: CancerNetwork

Em cuidados paliativos e oncologia, de forma ampla. Uma metanálise de estudos randomizados e controlados identificou 57 estudos demonstrando a hipnose como tratamento eficaz para dor, náusea, fadiga, ondas de calor, distúrbios do sono, tratamentos odontológicos, hipertensão, zumbido, ansiedade e recuperação pós-cirúrgica. Uma metanálise mais recente, conduzida por Garland e colaboradores em 2020 e citada em uma revisão publicada em periódico de cuidados paliativos, analisou 60 estudos randomizados sobre terapias mente-corpo para dor crônica tratada com opioides, sendo 23 deles focados em hipnose; em 65% desses estudos houve melhora estatisticamente significativa na intensidade da dor, e doze deles mostraram também menor consumo de opioides.
Ref: CancerNetworkPubMed Central
Reconhecimento oficial. Diante desse volume de evidência, a American Psychological Association passou a recomendar que a hipnose clínica seja incluída como parte do cuidado padrão para alívio de dor.
Ref: nih
Na odontologia. O uso de técnicas de foco e distração para reduzir medo e dor em procedimentos odontológicos é uma das técnicas não farmacológicas mais comuns no manejo de comportamento e de dor na odontopediatria, com valor reconhecido sobre a sedação farmacológica tradicional, a ponto de instituições de pesquisa testarem hoje versões da técnica entregues por realidade virtual em crianças ansiosas.
Ref: clinicaltrials

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No Brasil. Desde março de 2018, o Ministério da Saúde, pela Portaria nº 702/2018, incluiu oficialmente a hipnoterapia entre as Práticas Integrativas e Complementares (PICS) do Sistema Único de Saúde, hoje disponível gratuitamente em unidades de saúde pública espalhadas por diversos estados do país.
Fontes: Lang EV, Benotsch EG, Fick LJ, et al. Adjunctive non-pharmacological analgesia for invasive medical procedures: a randomised trial. The Lancet, 2000;355(9214):1486-1490; CancerNetwork, Clinical Hypnosis for the Palliative Care of Cancer Patients; Vayne-Bossert P, Hardy J. Is there a role for hypnosis in palliative care? Palliative Care & Social Practice, 2025 (citando Garland et al., 2020); artigo sobre hipnose perioperatória citando recomendação da American Psychological Association; ClinicalTrials.gov, NCT05167331 (hipnose por realidade virtual em odontopediatria); Ministério da Saúde, Portaria nº 702, de 21 de março de 2018.
Por que isso importa para você
Se você chegou até aqui, talvez já tenha sentido na pele o que é uma dor que os remédios não resolvem de vez, ou uma ansiedade que volta sempre no mesmo ponto. A ciência está mostrando, com dados, o que terapeutas sérios já sabiam na prática: a mente tem uma capacidade de foco que pode aliviar sofrimento físico e emocional quando é direcionada da forma certa. Não é milagre. Não é mistério. É neurociência, é foco e concentração trabalhando a favor da sua cura, e não contra ela.
A dor que você carrega é só um mensageiro batendo na sua porta. Não adianta continuar matando o carteiro, tentando calar o sintoma. Chegou a hora de ler a carta, entender a raiz, e finalmente fechar essa porta com segurança, sem precisar carregar esse peso pelo resto da vida.
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